terça-feira, 12 de Maio de 2009

Deixou geologia para caricaturar estudantes

Cerca de metade das caricaturas dos livros de curso da Queima das Fitas de Coimbra são feitas por Luís Costa. Tem 46 anos e há 21 que se dedica ao desenho dos estudantes. A festa estudantil é a sua maior fonte de rendimento.

Luís Costa afirma não ter noção da quantidade de caricaturas que faz anualmente. "Nunca conto. Conto os carros, e aí vou tendo uma ideia", sublinha. Ao saber que vão 110 carros no desfile faz a estimativa. "Fiz à volta de 50%" (anualmente são cerca de dois mil estudantes que vão no carro, no total). O dinheiro que ganha também é difícil de calcular. "Vai-me entrando, vou gastando", brinca.

Natural da Ilha Terceira, o caricaturista lembra como se iniciou na actividade. "Faço caricaturas porque o caricaturista que fazia faleceu, e quando cheguei à faculdade os meus colegas estavam à minha espera para eu as fazer. Tinha feito uma no ano anterior. Foi a partir daí", lembra, explicando o processo nos anos seguintes. "No ano seguinte fiz cinco, depois dez, depois foi exponencial…não parou", tendo chegado a fazer 80% dos fitados. O curso de Geologia na

Universidade de Coimbra ficou para trás. "Não se perdeu um grande geólogo. Até gostava, mas gosto muito mais do que faço", conta.
Com o ateliê montado em casa, Luís Costa tem seis meses árduos, de Novembro a Maio, trabalhando das 14 horas até às sete da madrugada. "As caricaturas até ao Natal são mais baratas, e como já toda a gente sabe, vêm todos nessa altura", afirma. Até à época natalícia uma caricatura fica em 17 euros. À medida que se aproxima a Queima das Fitas, vai-se tornando mais cara. "O preço máximo é 35 euros, se não for estudante. Se pedirem A3 é 55 euros, mas
praticamente não aparece ninguém", diz, entre risos.

O método de trabalho está definido há muito tempo: as pessoas vão a casa de Luís, em grupos de 15 de cada vez, de duas em duas horas, com cada dia a ser dedicado a cada carro. Cada esboço leva sete minutos a fazer. "Mostro ao grupo primeiro. Se tem consenso, está feito, e mostro à pessoa", explica, referindo que o caricaturado não tem voto nenhum na matéria. "Tem uma razão de ser: é que o próprio não tem noção do que é. Nunca me deram bons palpites acerca de si próprios", justifica. Quando não gosta do que faz, repete logo. "A Queima ganhou características muito próprias, se eu fizer uma caricatura tem de ser reconhecível por qualquer pessoa", refere.

O material utilizado é dispendioso. Os pincéis são importados. Custam 35 euros e dão para 20 caricaturas. Destaca que "é um pânico" todos os anos para os conseguir, "em especial por atrasos no correio". O mais barato é o papel, que vem da Papelaria Fernandes. "Diz-se que vai acabar. Se for assim, vou ter de mudar de marca, ao fim de 20 anos", lamenta.

A partir de Maio, dedica-se a outras actividades que tem, em especial a concepção de material didáctico para o Museu de São Roque, em Lisboa. "Tenho de fazer dois baralhos de cartas, um puzzle e o roteiro do museu para crianças e deficientes. Mas esta parte custa tanto que isso para mim são férias", brinca. O livro de banda desenhada é um projecto futuro, com Luís a procurar uma editora para o poder realizar.